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Bala de borracha matou Nisio Gomes, confirma Policia Federal de Ponta Porã

24 julho 2012 - 15h50
Midiamax

No dia 28 de novembro de 2011, diante de todas as especulações sobre a possibilidade do cacique Nisio Gomes estar vivo porque foram empregadas somente balas de borracha no atentado contra os kaiowás guaranis, segundo versões da perícia da Polícia Civil do governo Puccinelli, que trabalhou no caso, auxiliando a PF, o Midiamax publicou a seguinte manchete:

“Balas de borracha de atentado contra kaiowás guaranis também matam”.

O texto baseado em casos e laudos técnicos, inclusive de fabricantes, alertava: “Um tiro de bala de borracha pode se tornar letal quando efetuado fora dos padrões de segurança, que foram criados para diminuir o seu dano no corpo das pessoas alvejadas. O disparo de borracha por fuzil calibre 12, de uma potência estrondosa, tem que ser efetuado dentro de determinadas limitações”.

Foi exatamente o que ocorreu, esclarece agora a Polícia Federal de Ponta Porã, que ainda procura o corpo de Nisio. A morte ocorreu por disparo de bala de borracha sob a axila de Nisio, que provocou grande impacto sobre o coração do cacique.

A confirmação da PF também desmascara a manobra dos réus que, ao usarem balas de borracha, tentavam afastar a hipótese de homicídio com ocultação de cadáver, crime considerado gravíssimo pelo Código Penal, que sentencia os assassinos com altas e longas penas.

Além disso, a afirmação confirma a informação do filho do cacique, Valmir, que afirmou ter visto o pai ser arrastado para a carroceria de uma caminhonete dos muitos pistoleiros. A versão de Valmir foi contestada pela perícia do governo do estado e por parte da imprensa.

PF deu reviravolta no caso, em trabalho pioneiro no MS

Depois do primeiro laudo da PF, que colocava em dúvida a morte do cacique Nisio, em função do trabalho da perícia, o caso caminhou para o esclarecimento com a confissão de uma das principais testemunhas do crime, que teve aderiu à “deleção premiada”, estimulado pela PF.

O próprio criminoso afirmou contou sua participação no crime, em entrevista exclusiva para jornalistas da MSRecord. Chegou a relatar que os atiradores colocaram moedas no cano para dar mais pressão das carabinas aos tiros.

“A minha parte era carregar o corpo né... e faze a retirada. Ficou eu e outro na BR, quando escutamos os tiroteio, a gente desceu porque estava tendo conflito entre eles. Quando chegamos nos deparamos com um dos nossos machucado. Daí, veio um, saiu do meio do mato e falou assim: O índio morreu, o índio morreu! – Daí eu falei assim mas... e ele não deve estar desmaiado, alguma coisa. Daí o cara que estava com nós falou que não. Daí coloco o pé e empurrou ele, o corpo de lado. Daí, ele tinha um buraco muito grande no subaxilar direito e não saía sangue, ele tava com o olho parado, a boca aberta e não respirava nada. Ele já estava, estava com certeza morto”, afirmou a testemunha.

O criminoso contou mais: “Seis doze (carabinas) foram usadas para atirar com bala de borracha. Falo pra gente atirar à vontade, porque diz que não era letal. Mas não foi tanto isso como aconteceu. Até no momento que tava tendo tiroteio, né? Eles falaram que iam colocar moeda no cano das armas para ter mais, para ferir mais né, pra ser letal. Ter mais impacto. Foi a ordem passada para nós” confessou.

Diante disso, e mesmo sem o encontro do corpo do cacique Nisio, que pode estar inclusive no Paraguai, a situação dos mandantes e executores se complicou bastante.

A tese que afirma que “sem cadáver não há crime” não se sustenta diante de um investigação policial bem executada. Tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro, criminosos cremam o corpo de suas vítimas, mas nem por isso escapam da condenação. O caso mais conhecido é o do jornalista Tim Lopes, assassinado e cremado dentro de um “micro-ondas” (pilhas de pneus) no Moro do Alemão. Todos os seus assassinos estão presos e condenados.

No caso Nisio, a PF prendeu seis fazendeiros, um advogado e um servidor público e os executores, ao todo 18 pessoas. O presidente do Sindicato Rural de Aral Moreira, Osvin Mittank, está entre os presos pela Polícia Federal. Os presos foram indiciados por homicídio qualificado.

Entre os que praticaram o homicídio, estão 10 pessoas são ligadas a uma empresa de segurança privada da cidade de Dourados/MS, Gaspen, incluindo seu proprietário, o PM aposentado Arcelino Arce e os gerentes.

A reviravolta do caso começou quando sua ex-amante, Tatiane Michele dos Santos, de 20 anos, que foi presa com outras quatro pessoas e contou a participação de Arce no caso da morte do cacique.

Em nota, a PF afirmou que os fazendários plantaram pistas erradas para confundir as investigações: “Após a morte do cacique Nísio e a ocultação do seu corpo, alguns dos fazendeiros indiciados tentaram se utilizar de técnicas escusas para dificultar o trabalho da polícia, chegando inclusive a contratar um indígena de outra aldeia para fingir que estava ajudando nas investigações, mas na verdade estava passando informações erradas”.

Veja a íntegra da nota distribuída pelo setor de Comunicação Social da Superintendência da PF/MS:

A Polícia Federal de Ponta Porã/MS concluiu nesta semana a segunda fase das investigações do inquérito policial que foi instaurado para apurar os crimes decorrentes do ataque ao acampamento indígena Guayviry, situado no município de Aral Moreira/MS, ocorrido no dia 18/11/2011, em que figurou como vítima o cacique Nízio Gomes, tendo o inquérito policial sido novamente encaminhado ao Ministério Público Federal.

No total foram 23 pessoas indiciadas, das quais 18 estão presas por mandados de prisão preventiva em vista de seus indiciamentos pelos crimes de homicídio qualificado, ocultação de cadáver, fraude processual e corrupção de testemunhas. Houve ainda o indiciamento de um funcionário da FUNAI pelos crimes de quadrilha e coação no curso do processo, haja vista ter tentado coagir uma importante testemunha a mudar seu depoimento na polícia. Como o caso ainda tramita em segredo de justiça, os nomes dos indiciados não serão divulgados pela Polícia Federal, assim como detalhes específicos sobre as investigações.

Dentre os presos, 10 pessoas são ligadas a uma empresa de segurança privada da cidade de Dourados/MS, incluindo seu proprietário e gerentes e 06 são fazendeiros da região de Ponta Porã/MS e Aral Moreira/MS. Um destes fazendeiros é presidente de um Sindicato Rural no Estado de Mato Grosso do Sul, havendo também 01 advogado do Paraná dentre os presos.

Como já divulgado anteriormente, as novas provas colhidas pela Polícia Federal apontam que efetivamente o cacique Nízio Gomes foi morto no acampamento e seu corpo teria sido levado do local em uma caminhonete, sendo os executores do ataque as pessoas vinculadas à empresa de segurança privada de Dourados/MS. Após isso, o corpo do cacique Nízio Gomes teria sido ocultado pelos fazendeiros que atuaram como “mandantes” do ataque aos índios.

O local onde está o corpo do cacique ainda está sob investigação da Polícia Federal. Pelo que consta, alguns dos fazendeiros presos sabem exatamente onde o corpo estaria escondido, no entanto nenhum deles demonstrou interesse em colaborar com as investigações e informar o local em que teriam ocultado o corpo.

Ao que parece, este seria um dos principais motivos que justificariam o prolongamento das prisões, pois, se mesmo estando presos a estratégia até agora utilizada pelos fazendeiros está sendo a de negar qualquer envolvimento com os crimes (apesar de entrarem em contradição com outras provas produzidas), estima-se que se postos em liberdade o corpo dificilmente será encontrado dada a vastidão de áreas não habitadas nesta região de fronteira com o Paraguai. Após a morte do cacique Nízio e a ocultação do seu corpo, alguns dos fazendeiros indiciados tentaram se utilizar de técnicas escusas para dificultar o trabalho da polícia, chegando inclusive a contratar um indígena de outra aldeia para fingir que estava ajudando nas investigações, mas na verdade estava passando informações erradas. ]

Os fazendeiros e o advogado (preso) orientaram referido indígena a dizer para a Polícia Federal que o cacique Nízio estava vivo e morando com familiares em uma aldeia no Paraguai, pois na visão deles a polícia nunca iria ter como checar estas informações e com isso iria sempre perdurar a dúvida sobre sua morte. Entretanto, após um intenso trabalho de investigação, os policiais conseguiram provar ao indígena que ele estava indicando pistas falsas, momento em que ele resolveu falar a verdade de que Nízio Gomes estava morto e que ele havia sido contratado pelos fazendeiros para tentar ludibriar a polícia. Em troca, os fazendeiros prometeram a ele uma grande quantia em dinheiro (uma parte pequena foi efetivamente paga) além da contratação de um advogado, caso fosse necessário, e ainda fizeram a promessa de que iriam adotar as providências necessárias para elegê-lo vereador nestas eleições.

Antes do ataque ao acampamento Guayviry, este mesmo indígena tinha sido contratado pelos fazendeiros para tentar negociar com o cacique Nízio Gomes a saída do seu grupo em troca do pagamento de uma grande quantia em dinheiro, mas como o cacique não aceitou, os fazendeiros resolveram contratar a empresa de segurança privada para realizar o ataque ao acampamento. As armas utilizadas no ataque ao acampamento Guayviry foram fornecidas pelos fazendeiros e trataram-se de espingardas calibre 12, com munições classificadas de “menos letal”, entretanto vale ressaltar que se o disparo for feito em curta distancia ou se for utilizada de maneira inadequada, pode ser tão letal quanto uma munição comum.

Uma das pessoas presas que participou da execução do ataque ao acampamento confessou em interrogatório que o cacique Nízio foi atingido por um disparo na região subaxilar e que ele havia participado da retirada do corpo do local do ataque, tendo inclusive verificado o seu pulso e constatado a efetiva morte do índio. Este indiciado esclareceu, inclusive, que houve pouco sangramento do cacique Nízio, o que se coaduna com o que foi descrito no laudo pericial de que havia pouco sangue no local dos fatos.

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