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Com futuro de Chávez obscuro, Venezuela pisa à beira da incerteza

02 outubro 2011 - 12h19Por Terra
Nesta semana, mais uma vez, a imprensa publicou que o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, passava por complicações no seu estado de saúde. Caracas, mais uma vez, negou. Mas, entre relatos isolados da piora de Chávez e a falta de informações do governo bolivariano, a Venezuela caminha para uma situação obscura, na qual o futuro do país, caso privado daquele que o une, pode se tornar um mar de instabilidades.

Chávez passa por um pesado tratamento contra um câncer, que afastou-o não apenas de algumas atividades políticas como até mesmo do país. Em suas idas a Cuba, em cujos hospitais tem se tratado, o presidente não cedeu o posto ao vice, Elías Jaua, que deveria ter assumido interinamente. A decisão, que inclusive vai contra a Constituição de 1999, reforçou a imagem de Chávez como um político centralizador, o ímã carismático em torno do qual se estrutura, ainda que frágil, sua Quinta República bolivariana.

"Há esse clima de incerteza muito grande com relação ao país", avalia o cientista político Maurício Santoro (UFRJ). "Em geral, os políticos que começaram a ter uma projeção maior durante o governo dele acabaram sendo afastados. Ele lida mal com a possibilidade de ter um número 2, de ter alguém que alguém pudesse apresentar alguma ameaça, alguma sombra para ele."

Mas a personalidade forte, que ajuda a dar forma a governo, muitas vezes deixa vácuos de autoridade depois da sua partida. No caso da morte de Chávez, Elías Jaua assumiria a presidência e provavelmente a manteria até as eleições de 2012 (atualmente marcadas para outubro, mas que ainda poderia ser adiantadas). Jaua, no entanto, é uma figura discreta, carente de força política, exemplo da falta de harmonia na divisão de poder entre Chávez e seus aliados.

Jaua, um sociólogo que também é ministro da Agricultura, assumiu a vice-presidência em 2010 após a renúncia de Ramón Carrizales, devido a conflitos com Chávez. O vice, hoje com 41 anos, "não é um sujeito que tivesse uma carreira política muito destacada. Ele basicamente era um quadro mais técnico da Venezuela, que não tem um setor agrícola expressivo", comenta Santoro.

Com uma liderança fraca, a Venezuela provavelmente viveria uma situação de alta instabilidade até as eleições. "Certamente haveria uma fragmentação muito grande do jogo político venezuelano", avalia Santoro. "O mais provável, se o Chávez tiver uma morte repentina, é que as diversas facções do chavismo acabassem cada uma lançando seu próprio candidato." Por sua vez, a falta de unidade da situação, em forma do Partido Socialista Unido da Venezuela (Psuv) desde 2007, é o que vive a própria oposição, hoje agrupada na Mesa da Unidade Democrática (MDU).

A pessoa mais próxima de se alimentar do carisma de Chávez seria sua filha, Maria Gabriela, que atua como a primeira-dama de facto da Venezuela. A herdeira, no entanto, com seus jovens 28 anos, ainda carece de credibilidade política, e necessitaria de mais anos de trabalho para eventualmente se apossar da carga de influência do pai. "Ela precisa de tempo. Ela tem, na prática, assumido as funções de primeira-dama no país, que, como em outros países, inclui uma alta dose de filantropia, um pouco de política social", diz Santoro.


Caso Chávez se recupere, resta saber se terá condições de participar das eleições como candidato, o que certamente seria sua escolha, ou se terá que se contentar com guiar a escolha do seu sucessor. Sua personalidade é o que mantém o atual funcionamento de Caracas, mas "esse processo de institucionalização da liderança carismática do Chávez ainda não está completo na Venezuela. E, se ele morrer, se esse carisma foi retirado, será muito problemático", completa.

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