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“A gente só aprende depois de ter acontecido”, diz vítima de acidente

“A gente só aprende depois de ter acontecido”, diz vítima de acidente

12 janeiro 2012 - 13h20
Campograndenews

Mais do que número sobre a violência do trânsito. Quem entra na estatística de acidentes se torna exemplo para aqueles que, apesar de ter informação, ainda precisam ‘ver para crer’ quando o assunto é a combinação álcool + direção.

Dirigir embriagado e outros desrespeitos às leis de trânsito podem resultar em acidentes graves, prisões e processos judiciais. Situações que acabam envolvendo não só vítimas e autores, mas também familiares e amigos.

Eder Tulio Pereira Bezerra, 21 anos, foi uma das vítimas da somatória de diversos erros. Para ele, o acidente serviu de exemplo para mudanças de atitudes. Para os pais, o que aconteceu com o filho mudou o pensamento, a visão, sobre cada informação referente ao trânsito e ao comportamento deles atrás de um volante ou de um guidão.

A lição e o acidente - “Eu também já andei depois de ter bebido. Agora, aprendi que isso não se deve fazer. A gente só aprende depois de ter acontecido”, desabafa o rapaz que teve a perna esquerda amputada, fraturas na direita e outros ferimentos pelo corpo que o fizeram ficar 38 dias no hospital e agora o mantém afastado do serviço e, 25 quilos mais magro, obrigado a ter atendimento de enfermagem diariamente, a tomar medicamentos e a desembolsar dinheiro para comprar tudo que é preciso.

A mudança na rotina do rapaz que trabalhava como assistente administrativo no Planurb (Instituto Municipal de Planejamento Urbano) da Prefeitura de Campo Grande começava por volta da 00h30min do dia 10 de novembro de 2011.

Conforme registro da Ciptran (Companhia Independente de Polícia de Trânsito), Eder conduzia sua Honda Twister pela avenida Afonso Pena no sentido Centro/bairro e logo após passar pelo cruzamento com a avenida Ernesto Geisel foi atingido pela caminhonete Bonanza dirigida pelo médico Valdir Shigueiros Siroma, 64 anos, que iria entrar na garagem de sua casa.

De acordo com registrado pela Ciptran, a caminhonete seguia no sentido bairro/Centro e fez uma conversão em local proibido. O condutor virou o veículo na contramão, em um ponto de retorno, e quando estava na faixa do meio do outro sentido da Afonso Pena, colidiu com a moto.

“Eu vi ele, mas achei que ele fosse parar, apesar de estar errado”, lembra Eder Tulio que ‘voou’ após a colisão. O jovem bateu no pára-brisa da Bonanza e caiu 32 metros depois. “Eu cheguei logo depois. Quando vi a moto pensei: meu filho não sobreviveu. E fui correndo até onde ele estava. Até lá só via pedaços dele”, conta Kelly Ribeiro Pereira, 39 anos.

Infrações - Além de estar na contramão, o condutor da caminhonete dirigia com 0,28 miligramas de álcool por litro de sangue, conforme exame de alcoolemia realizado pela Ciptran.

Já Eder Tulio não é habilitado para pilotar moto. “Eu tenho [carteira] de carro e estava tirando para moto. Agora, não vou poder mais andar de moto”.

Consequência - O resultado do acidente é que o único filho de Kelly quase teve a perna amputada no local do acidente, mas, segundo ela, o bom atendimento do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e de profissionais da Santa Casa, evitou que o membro inferior fosse retirado nos primeiros momentos.

No entanto, para que Eder sobrevivesse a amputação foi necessária. “Eu cheguei lá para a visita e o médico disse ou você assina e autoriza [a amputação] ou você não sai daqui com seu filho vivo”, disse Wilson Bezerra de Lima, 51 anos, pai do rapaz.

Além disso, a família mobilizou amigos, parentes e conhecidos e conseguiu doações de 90 bolsas de sangue. Para os pais, o apoio de todos, Deus e o atendimento médico na Santa Casa foram essenciais à sobrevivência de Eder. “Ele só está vivo primeiro por Deus e depois pelo atendimento do doutor Hugo André”, agradece a mãe.

Depois dos 38 dias com o filho no hospital e tudo o que ele viveu lá dentro - cinco sessões de hemodiálise, 18 dias em coma induzido, cinco cirurgias, diversos curativos -, entre outras coisas - e assistindo ‘de camarote’ a luta de muitos acidentados e equipe médica, Kelly e Wilson afirmam que o pensamento deles sobre o trânsito mudou.

“Eu via aquele monte de coisa. Só sabe o que a gente passa quem já passou. Você não tem ideia do que é”, fala Kelly, que depois do acidente com o filho, passou a dirigir com mais cuidados e ainda não teve coragem de pilotar a sua motocicleta. “Eu sou apaixonada por moto. E ainda não consegui encostar na minha, não tive coragem”. O filho complementa. “Espero que não tenha”.

Wilson pede maior rigor na punição para quem desobedece às leis de trânsito. “É preciso legislação mais rígida”, defende.

Assistência- A família diz que Valdir prestou os primeiros socorros e ofereceu R$ 5 mil para os gastos. No entanto, Wilson e Kelly falam que os gastos são superiores e que Valdir, apesar de ser médico, não demonstrou interesse pelo estado de saúde de Eder.

A reportagem do Campo Grande News tentou entrar em contato com Valdir por telefone. Na primeira ligação ao celular dele ele atendeu e disse que estava em consulta e pediu para ligar posteriormente. Depois, não foi mais localizado.

Números - De acordo com a Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito), em 2011, 124 pessoas morreram no trânsito de Campo Grande. Destes, 78 eram motociclistas, 18 ciclistas, 17 pedestres, cinco condutores de automóveis e seis passageiros.

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