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Tem que lutar até sair sangue, diz ídolo de 1942

70 anos depois, único vivo da Arrancada Heroica se diz aborrecido com Palmeiras

20 setembro 2012 - 16h50
IG



Há exatamente 70 anos, no dia 20 de setembro de 1942, o Palestra Itália (então Palestra de São Paulo) entrava pela última vez em campo. No gramado do Pacaembu, nascia em uma "Arrancada Heroica" a Sociedade Esportiva Palmeiras. A equipe foi obrigada a trocar de nome devido à 2ª Guerra Mundial, já que o Brasil era inimigo do Eixo, grupo formado por Itália, Alemanha, Japão, Bulgária, Hungria e Romênia. Naquele dia, o Palmeiras entrou em campo com uma bandeira do Brasil, debaixo de muitas vaias da torcida do São Paulo. Depois, venceu o rival por 3 a 1 e sagrou-se campeão paulista de 1942, conquistando pela 9ª vez o Estadual.

Da equipe palestrina que entrou em campo naquele dia, apenas um jogador está vivo: o lendário goleiro Oberdan Cattani, jogador que atuou 14 anos pelo Palmeiras e é considerado um dos maiores ídolos da história do time. Aos 93 anos, ele lembra cada detalhe da partida que aconteceu há 70 anos e marcou sua vida para sempre. "Todo mundo chorou de alegria quando acabou aquele jogo. Morreu o Palestra Itália, mas nasceu o Palmeiras campeão", disse ao iG o ex-atleta, que contou outros causos sobre o duelo no Pacaembu (veja abaixo).

Natural de Sorocaba, Oberdan mora em São Paulo e continua torcendo pelo Palmeiras. Com dificuldades para caminhar, diz que raramente vai ao estádio acompanhar as partidas da equipe. Também não tem visto os jogos pela televisão ultimamente, já que a campanha ruim e a vice-lanterna do Campeonato Brasileiro deixam o ídolo "aborrecido". Para ajudar a equipe alviverde escapar do rebaixamento, o lendário goleiro dá a dica: incorporar o mesmo espírito que os jogadores do Palmeiras tiveram em 20 de setembro de 1942.

"Acho que não vai ser rebaixado, mas estou aborrecido, desanimado. Os jogadores têm que lutar até o fim. Tem que lutar até sair sangue, igual nós fizemos naquele dia. Eles têm que incorporar o espírito da Arrancada Heroica. Antes do jogo, a gente se reuniu e gritou: 'Não podemos perder esse jogo de jeito nenhum'. Lutamos muito por essa camisa", emociona-se Oberdan Cattani, dono de nove títulos e 351 jogos por Palestra Itália, Palestra de São Paulo e Palmeiras.

Os causos da "Arrancada Heroica"
Oberdan não gosta de lembrar o dia em que soube que o Palestra mudaria de nome. Descendente de italianos, o ex-goleiro diz que carregava com orgulho o nome da Itália em sua equipe. Pior do que isso foram as vaias da torcida do São Paulo quando os jogadores entraram em campo no Pacaembu. Uma "humilhação", segundo Oberdan, considerado um "inimigo do Brasil" por jogar na equipe que levava o nome da nação inimiga na 2ª Guerra Mundial.

"Estávamos concentrados numa chácara em Poá (grande São Paulo) quando chegou a notícia que o Palmeiras ia mudar de nome. Fiquei revoltado, pois sou descendete de italianos, e a maioria dos jogadores era! Mesmo quem não era, como o Junqueira (zagueiro), ficou abalado. A gente dizia: 'A guerra é na Europa, não no Brasil! Por que fazem isso com a gente?'. Quando entramos no Pacembu, no dia da Arrancada, mesmo estando com a bandeira do Brasil nas mãos, toda a torcida do São Paulo vaiou. Ficamos revoltados! Dissemos: 'Não vamos perder o jogo de jeito nenhum. E deu tudo certo! Ganhamos por 3 a 1 e todo mundo chorou de alegria quando acabou o jogo. Assim, morreu o Palestra Itália e nasceu o Palmeiras campeão", recorda Oberdan.

A vitória contra o São Paulo, inclusive, teve lances bastante peculiares, que o ex-goleiro recorda aos risos: "Entramos com uma garra danada naquele dia, principalmente por causa das vaias. Fomos para o intervalo vencendo por 2 a 1 e fizemos o 3 a 1 no começo do 2º tempo. Depois, ainda tivemos um pênalti e o jogo podia virar goleada, mas o Luisinho (jogador do São Paulo) pegou a bola na mão e não nos deixou bater!", ri Oberdan, que ainda refuta as reclamações de que o árbitro Jaime Janeiro Rodrigues seria torcedor palestrino.

"Eles (atletas do São Paulo) falavam que o árbitro era palmeirense, mas ele era são-paulino! O Virgílio (jogador do São Paulo) fez o pênalti no Og Moreira, sim, e o juiz apitou certo, mas o Lusinho não deixou a gente bater de jeito nenhum", conta o ídolo palestrino. O São Paulo acabou abandonando o jogo aos 19min do 2º tempo, com o Palmeiras se consagrando campeão do Paulistão 1942.

"Até sair sangue pela boca"
Oberdan Cattani considera o dia da "Arrancada Heroica" como o mais marcante de sua vida. A festa que a torcida alviverde fez no dia do título do Paulistão 1942 está até hoje gravada em sua cabeça. Segundo o lendário goleiro, a taça foi conquistada sobre o rival São Paulo graças aos jogadores que lutaram "até sair sangue pela boca".

"Ter o privilégio de ter vivido aquele dia é algo que me enche de alegria até hoje. Nós passamos uma humilhação gigante, com jornal falando que o São Paulo seria campeão, com gente falando que o Palestra Itália era inimigo da nação. Na concentração, lá em Poá, a gente se revoltava, pedíamos uns aos outros para lutar até sair sangue pela boca. No fim, deu tudo certo para nós", diz o ex-arqueiro.

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