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Gado paraguaio cruza a fronteira brasileira

26 setembro 2011 - 09h47Por Estado de São Paulo
Na área de influência do foco de febre aftosa notificado pelo Paraguai, numa região declarada Zona de Alta Vigilância pelo governo brasileiro, o gado paraguaio passa livremente a fronteira e entra no Brasil, no extremo sul do Estado de Mato Grosso do Sul.

A reportagem flagrou uma boiada cruzando a fronteira a menos de 30 km do bloqueio que o Exército montou com blindados na BR-463, que liga Ponta Porã a Dourados. O flagrante ocorreu na quinta-feira (22), no momento em que o ministro da Defesa, Celso Amorim, visitava a região e falava do apoio da operação militar ao controle da fronteira para evitar a entrada da aftosa.

A reportagem percorreu 410 quilômetros - sendo 330 em estradas de terra - para constatar que o controle sanitário na faixa de fronteira continua sendo uma ficção. Embora a Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (Iagro) informe que a vigilância foi reforçada com barreiras nos 15 postos fixos do órgão na região, além de cinco equipes volantes, o Estado não encontrou uma única barreira em operação ao longo da Linha Internacional, estrada na divisa dos dois países.

Durante as 12 horas de viagem, a reportagem só cruzou com uma patrulha volante do Departamento de Operações de Fronteira (DOF), força da Polícia Militar estadual especializada no combate ao tráfico de drogas e contrabando, mas que não estava acompanhada pelos fiscais do Iagro. Há apenas dois postos fixos no trecho - média de um a cada 200 km de fronteira -, e, em ambos, os funcionários do órgão de fiscalização estavam recolhidos no prédio, preparando refeições ou vendo TV.

A região é a mesma em que, há cinco anos, um surto de aftosa causou o abate de 35 mil animais, a interdição de mais de três mil propriedades rurais e um prejuízo superior a R$ 1 bilhão. Um dos postos fica em Sanga Puitã, distrito de Ponta Porã, justamente o local em que o gado paraguaio cruzava a fronteira. Bois, vacas e novilhos atrapalhavam o trânsito num dos poucos trechos asfaltados. Ao notar a presença dos repórteres, um garoto a cavalo cercou os animais no lado brasileiro e fez o gado retornar.

A fronteira seca entre Brasil e Paraguai, no trecho sul, entre Ponta Porã e Mundo Novo, na divisa com o Paraná, é demarcada por marcos de concreto e pela Linha Internacional, como são conhecidas as duas estradas paralelas, uma no lado brasileiro, outra no Paraguai. Em muitos pontos, elas cortam propriedades rurais do mesmo dono.

Numa área sob risco de febre aftosa, algumas fazendas estão sem cercas e o gado invade a linha de fronteira. O peão Abílio Leite da Cruz, de 68 anos, soltou o gado do patrão nessa área para aproveitar o pasto. "Tem vez que os bois vão longe, mas é gado com brinco (plaqueta de identificação fixada na orelha) e a gente recolhe." Ele não teme a aftosa. "Está muito longe daqui."

Havia gado solto também no município de Aral Moreira, nas imediações da Fazenda Itapuí; na altura da Fazenda Lagoa de Ouro, a 10 km de Coronel Sapucaia; no local conhecido como Manta Potrero; e na estrada de acesso a Três Cerros, município de Paranhos. No início da noite, a reportagem flagrou uma boiada caminhando pelas ruas de Sete Quedas - a cidade fica na fronteira e está incluído na Zona de Alta Vigilância.

Tradicionais criadores do lado brasileiro estão preocupados com a migração de bovinos paraguaios. A confirmação de casos de febre aftosa no departamento de San Pedro, a 130 km da fronteira com o Brasil, levou ao embargo da carne paraguaia e fez o preço da arroba despencar. Na sexta-feira, em Salto del Guayrá, falava-se numa queda de preço de 50% no mercado paralelo, já que os negócios oficiais estavam paralisados.

O administrador da Fazenda Fisher, em Paranhos, João Nobre, de 55 anos, conta que seu patrão se deslocou de Santa Rosa, no Paraná, para acompanhar a vacinação do gado contra brucelose. "Aqui todo mundo vacina e cuida direito. Fica muito ruim se um boi doente atravessa para esse lado. Aí, quem faz a parte dele acaba sendo prejudicado."

O criador Sérgio Resende, de Tacuru, também se incomoda com o vai e vem de gado na fronteira. "Por mais cuidado que a gente tome desse lado, se vem uma vaca, um bezerro que seja infectado, perdemos tudo, e isso é muito sério."

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