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PENITENCIÁRIA

“Tive que ficar preso para encontrar a minha liberdade”

08 agosto 2019 - 19h00Por Da redação

“Tive que ficar preso para encontrar a minha liberdade”, essa foi a frase que definiu o processo que o detento Rafael Marques, de 31 anos está tendo dentro da instituição penal. Assim como ele, outras dezenas de pessoas que cumprem pena dentro do Sistema Estadual Penitenciário de Mato Grosso do Sul lutam diariamente para vencer o vício e se tornarem novas pessoas para novas histórias.

A dependência química é problema de saúde pública mundial. É uma doença difícil, com resultados ainda precários: apenas de 1 a 3% consegue ficar sem recaídas. No caso dos detentos, a situação ainda é mais grave. 

Há nove meses Paulo Ricardo, 31 anos, tem a mesma rotina. Toda terça-feira, pouco antes das 09h da manhã, ele se encosta-se à grade e, ansioso, fica esperando que os outros portões se abram e ele possa entrar no seu pequeno paraíso. O espaço onde conheceu a sobriedade e entendeu que tem uma doença sem cura. Mas que, felizmente, têm tratamento e pessoas, profissionais capacitados e dispostos a enfrentar a luta contra a adição. Este é o objetivo do programa Recomeçar do Instituto Penal de Campo Grande, criado em 2012 pela Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário (Agepen), e praticado em outros 22 presídios do Estado.

No início, o detento Paulo Ricardo, preso por tráfico de drogas (pena de seis anos e nove meses), não acreditava que aquelas reuniões fossem fazer qualquer mudança na sua vida. Usuário de drogas desde os 15 anos de idade, ele começou a traficar quando perdeu o emprego – segundo ele, em consequência do uso excessivo de entorpecente. E foi logo na chegada ao presídio, durante longa entrevista com a psicóloga e coordenadora do programa, Fernanda de Melo Rosa, que Paulo Ricardo, emocionado, entendeu que precisava de ajuda. Desde então nunca faltou às reuniões. “Sou outra pessoa”, diz orgulhoso, contando que na última visita, sua esposa, que também era descrente de alguma transformação, confessou que ele estava muito diferente. E para melhor.

O Recomeçar do Instituto Penal é o programa piloto, o primeiro a ser colocado em prática no Estado. Segundo a coordenadora, o Governo entendeu que a questão da dependência química necessita de tratamento específico e envolvimento de todos os profissionais. O motivo? A adição é uma doença cognitiva, física, social e psicológica. Mas o tratamento é voluntário, mesmo quando existe determinação judicial. “Não se pode obrigar o detento a frequentar o grupo, porque se ele não quiser o tratamento não acontece”, explica. Além dos grupos terapêuticos, o tratamento também conta com reuniões de NA (Narcóticos Anônimos) uma vez por semana, e suporte psiquiátrico.

Todos estes pilares, de acordo com a psicóloga, funcionam ainda melhor com o apoio da família. No futuro, a proposta é criar um grupo exclusivo de apoio para eles. Por enquanto, assim que o interno entra no programa, as assistentes sociais e psicólogas fazem contato via telefone com algum parente para avisar que ele está em tratamento. O objetivo é orientar a família para que ela dê um voto de confiança e, alguns casos, restringir o dinheiro que levam para detento para gastar na cantina. “A família é co-dependente, a droga desestabiliza todos ao redor”, atesta a psicóloga Viviana Rezende. A função da equipe multidisciplinar, segundo ela, é tentar restabelecer essa situação emocional e de conflitos, além de oferecer suporte para que a pessoa consiga perceber o que precisa ser mudado e melhorado em sua vida”. São vários atores na dependência química e a perda de referência social e afetiva estão sempre presentes. “Trabalhamos até datas comemorativas, porque muitos não sabem nem como é um Dia dos pais, das mães”, conta.

Isto acontece porque a droga ocupa este lugar afetivo, dá a falsa imagem de preencher um vazio. Anestesia. O exemplo de um dos internos do grupo é emblemático e emocionante, como conta a coordenadora, Fernanda: “Depois cinco meses em tratamento, um interno veio me dizer que conseguiu abraçar a mãe pela primeira vez na vida, aos de 21 anos”. Ele disse que não sabia que a mãe era “tão cheirosa e quentinha”. Resultado de uma cultura machista e atrasada, em que muitos meninos ainda são criados, ele nunca havia experimentado qualquer manifestação afetiva na sua casa. “O pai dizia que homem não abraça mulher”, diz Fernanda, acrescentando que estes são alguns detalhes que são trabalhados durante o tratamento e que fazem enorme diferença na vida deles.

Drogas na infância e na família

“Eles já são estigmatizados pela própria condição, a maioria não tem escolaridade e nem trabalho”, explica Fernanda. Isto sem contar que muitos deles cresceram com pais que usavam drogas. Para eles esta é uma atitude normal.

Um dos benefícios do programa é justamente o retorno aos estudos. Como Rafael Marques, de 31 anos, que completou o ensino médio no Instituto e hoje tem paixão pela literatura. “Antes só tinha lido gibi”, diz, contando que também pretende cursar uma faculdade. Está até pensando em fazer jornalismo. Preso há sete anos, nove meses e alguns dias, segundo suas contas, ele está no programa desde o início. Foi o desespero que o levou a procurar ajuda. “Já tinha tentado tudo”, confessa, ressaltando que o grupo possibilitou um reencontro consigo mesmo. “Ele me resgatou”, conta Rafael, outro que também começou a se drogar ainda jovem. Com uma pena de 19 anos para cumprir, Rafael têm consciência de que está pagando o preço por suas escolhas e sabe que seus planos não irão se concretizar tão cedo, mas não abre mão do desejo de recomeçar a vida. “Estou aprendendo ferramentas de resiliência e vivo um dia de cada vez”.

Para a equipe de profissionais que atuam no programa, questões como responsabilidade, respeito, perdão, aceitação e perdas resgatam de valores que eles nem imaginavam existir.  Até a higiene pessoal é abordada durante as reuniões que começam sempre com a oração da serenidade, seguida da apresentação individual e um mantra como saudação aos colegas: “Bons momentos”, dizem. Depois um coro forte, destemido, entoa canções com temas religiosos, acompanhados por um violão e um pandeiro. A fisionomia de cada um deles parece sofrer uma transformação imediata. O grupo é realmente a única saída para aqueles homens que tiveram a coragem de admitir o problema e procurar ajuda.

Tratamento traz mudanças ao comportamento

Como todos sabem, o sistema carcerário é complexo e delicado. Mas graças a iniciativas como esta, com terapias, tratamentos multidisciplinar, grupos de apoio e servidores guerreiros, ele está se tornando mais humano. De acordo com a coordenadora, e baseado em sua experiência com atendimentos, cerca de 90% dos crimes estão relacionados ao uso de droga. “O ladrão que invade uma casa, o sujeito que estupra ou mata, na maioria das vezes está sob efeito de alguma substância”, explica. A sociedade sofre muito com este grave problema, principalmente porque a droga está entrando até nas escolas. “Crianças estão começando a se drogar cada vez mais cedo, às vezes com menos de nove anos”, explica.

Diante desta realidade, o governo entendeu a necessidade de trabalhar com diversas frentes assistenciais, baseadas na educação, trabalho, capacitação e espiritualidade. Os internos que fazem parte do grupo Recomeçar reconhecem bem estes conceitos: “Não basta ficar sem se drogar e continuar desonesto, mentiroso”, diz Rafael. A diferença de comportamento entre os que frequentam o programa está na aparência – os detentos que frequentam o grupo ficam mais cientes da necessidade de cuidados pessoais – e no comportamento. “Eles não brigam entre si nem fazem confusão com os agentes”, atesta a psicóloga. Não por acaso, existem 80 detentos na fila de espera para entrar no grupo que, por enquanto, só consegue atender 40 internos.

O grupo de reabilitação é criterioso: disciplina e bom comportamento são essenciais para continuar no tratamento. Se o interno tiver duas faltas consecutivas ele é afastado do programa. Além disto não se permite o uso de gírias ou palavrões, porque este comportamento, de acordo com a especialista, traz a lembrança da droga e dos ambientes que frequentavam. Usando instrumentos como filmes, vivências e até poesia, novos valores vão sendo absorvidos sutilmente. Em um vídeo feito pela instituição, um dos protagonistas, ex-interno, que conseguiu sair das drogas, hoje tem bom emprego e até voltou a ter contato com filho. Mas Fernanda sabe que a recuperação não é fácil. Principalmente quando há reincidência.  A dependência química é uma doença que envolve o ser humano como um todo.

O Instituto Penal de Campo Grande recebe presos condenados por crimes pesados, como estupro e assassinato. Mas para a psicóloga, o programa não discrimina nenhum dos participantes. “Para mim, enquanto profissional, não importa o motivo pelo qual ele está preso, o que interessa é a relação dele com a droga”, explica a coordenadora. “É um orgulho para todos nós saber nosso trabalho pode ajudar essas pessoas a saírem daqui melhores do que entraram”, diz, ressaltando o apoio do diretor da Unidade, Francisco Américo Sanábria. A equipe, segundo ela, sabe que tem um aliado importante nesta cruzada contra o vício. “Ele valoriza nosso trabalho”, conclui.

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